29/01/2010
11/01/2010
Venezas sem glamour
São Paulo. Janeiro. Verão. Das 6h da manhã às 5h da tarde, um calor infernal, que queima o âmago de cada ser vivo que habita a terra da garoa. Depois das 5h as núvens se unem magneticamente deixando o céu em tons prateados. Ventos capazes de causar calafrios vagam pelas ruas e um pé d'água intenso limpa a cidade, ainda que a mesma continue abafada e sem fôlego. Na manhã seguinte, os apresentadores de televisão justiceiros se mostram injuriados com as enchentes e toda a destruição e caos que elas deixaram na cidade. Inúmeros bairros agora são inúmeras Venezas sem glamour. É incrível como São Paulo consegue ser qualquer lugar do mundo. Mas sempre sem glamour.
27/11/2009
Escuta-se. Mas importa-se?
Eu gosto de ouvir as pessoas. Ouvir as pessoas é legal. Aprende-se muito ouvindo-as, aprende-se muito lendo-as. Entra-se em um outro universo quando aprendemos a decifrar os diferentes tipos de pessoas com as quais convivemos. Cada mínimo detalhe passa a ser gritante quando ouve-se de verdade.
Geralmente quem muito ouve pouco fala e vice-versa. Mas será que quem muito ouve nada tem a falar? Que quem muito fala nada tem a ouvir?
Pode soar radical, mas de acordo com a minha pouca mas valiosa experiência, quem pouco ouve, pouco se interessa. Fico me perguntando se fui eu que tornei minha vida tão desinteressante ou são as pessoas que realmente não têm o mínimo interesse nela. É bem verdade que considero minha vida atual bem monótona (e isso acaba refletindo aqui e na falta de posts recentes). Mas é mais verdade ainda que dia pós dia ouço relatos de vidas que a mim não parecem atraentes e que mesmo assim faço questão de desbravar com perguntas e opiniões requisitadas.
Alguns podem dizer que talvez as pessoas estejam submersas em suas próprias vidas e não tenham interesse na vida alheia, o que eu descarto, pois se isso fosse verdade não existiria TV Fama e nem Big Brother Brasil.
Isso tudo me faz lembrar do filme 'O Show de Truman': um país inteiro acompanha os passos de Truman desde que ele nasceu, sabem tudo sobre o mesmo, desde sua marca de café preferida até a que horas ele vai dormir, mas pouco se importam se Truman, sem saber, vive em um estúdio e convive com figurantes durante 30 anos.
Os telespectadores acompanharam Truman por 30 anos. Escutaram Truman. Observaram Truman. Mas quem se importou com Truman? Quem ouviu Truman de verdade?
E você?
Qual foi a última vez que você realmente ouviu alguém?
Quando foi a útima vez em que você foi ouvido?
14/11/2009
Trechos
Todo bom filme tem aquele bom trecho que, não importa quantas vezes tenha assistido, você para para ver de novo. Às vezes alguns filmes ruins também são premiados com esses bons trechos que valem pelo filme todo. Pode ser uma cena com grande carga emocional ou simplesmente uma piada muito bem colocada combinada com uma expressão facial impagável. Os meus grandes trechos geralmente são em parágrafos. Aqui vão dois deles traduzidos, junto com o trailer de seus respectivos filmes:
O Dia Perfeito
Employee of the Month
Todo dia algum anônimo inexpressivo passa em frente a um ônibus e cai nessa. Eles chamam de destino, vontade de Deus. Aquele Zé Ninguém passou a vida inteira comendo suas ervilhas, estudando sua algebra, guardando dinheiro para sua aposentadoria, blah blah blah... Tudo isso para acabar como uma mancha marrom em um ônibus municipal de 10 toneladas, para ser lembrado como um pobre idiota que foi atropelado por um ônibus. Deus mata verdadeiros fiéis e almas gentis todo dia, e tem um passe livre do mundo inteiro. Tudo porque as pessoas pensam que seu assassinato e desordem são parte de um plano divino. Bem, foda-se isso. Eu tenho um plano divino e é tão bom quanto o de Deus. Ninguém tem uma primeira pista do porquê Deus mata as pessoas. Mas hoje todos vão saber porque eu matei.
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O Céu que nos Protege
The Sheltering Sky
Porque não sabemos quando vamos morrer, nós costumamos pensar que a vida é como um inesgotável bem, ainda que tudo aconteça apenas um certo número de vezes, e um número muito pequeno, realmente. Quantas vezes mais você vai se lembrar de uma certa tarde da sua infância, uma tarde que é tão profundamente parte do seu ser que você não consegue nem conceber sua vida sem ela? Talvez quatro ou cinco vezes mais, talvez nem isso. Quantas vezes mais você vai assistir a completa elevação da lua? Talvez vinte. E, ainda sim, tudo parece ilimitado.
04/09/2009
A arapuca de Jacinto
Jacinto, 60 anos, aposentado. Seu maior passatempo é capturar passarinhos na lage de sua casa com uma arapuca feita de bambu. Todo domingo é a mesma coisa: ele se levanta cedo, toma seu pingado, lê seu jornal e depois vai à caça. Espalha cautelosamente alguns grãos pela lage e aguarda. Não demora muito para que o primeiro pássaro encontre o suposto paraíso. Jacinto espera, paciente. O pássaro leva algum tempo até entrar na arapuca. Assim que ele entra, Jacinto puxa o barbante categoricamente, deixando a ave encurralada. Ele anda lentamente, agacha-se e tira o animal da arapuca. Quem vê a cena, logo imagina que o senhor sexagenário vai olhar carinhosamente para o passarinho e depois soltá-lo. Pelo contrário. Jacinto sente um prazer indescritível amputando as pernas de sabiás laranjeiras, pardais e afins todos os domingos. Faz isso há alguns anos e nada, mas nada mesmo, o faz sentir-se tão vivo quanto isso. Incapacitar um ser considerado inferior é extasiante para Jacinto.
Após o ritual macabro, Jacinto passeia pela feira. É um daqueles senhores que andam sem rumo pelas ruas e puxam conversa com qualquer alma que passar. Volta só depois das 21h para casa. Mas naquele dia, o destino pregou-lhe uma peça. Jacinto, em uma de suas longas caminhadas, atravessou uma avenida movimentada de maneira descuidada, sendo atropelado por um caminhão. Depois de alguns dias no hospital, ele recebe a notícia: terá que amputar as pernas.
O ócio é a oficina do diabo. Não julguemos Jacinto, agora incapaz de andar. Não julguemos seus métodos bizarros de diversão. Tampouco julguemos sua crueldade após anos e anos com pássaros de pequeno porte e seu sorriso no rosto ao vê-los agonizando. Jacinto agora passa seus domingos na lage vendo seus novos amigos voarem. Enquanto eles o assistem. Agonizando.
Após o ritual macabro, Jacinto passeia pela feira. É um daqueles senhores que andam sem rumo pelas ruas e puxam conversa com qualquer alma que passar. Volta só depois das 21h para casa. Mas naquele dia, o destino pregou-lhe uma peça. Jacinto, em uma de suas longas caminhadas, atravessou uma avenida movimentada de maneira descuidada, sendo atropelado por um caminhão. Depois de alguns dias no hospital, ele recebe a notícia: terá que amputar as pernas.
O ócio é a oficina do diabo. Não julguemos Jacinto, agora incapaz de andar. Não julguemos seus métodos bizarros de diversão. Tampouco julguemos sua crueldade após anos e anos com pássaros de pequeno porte e seu sorriso no rosto ao vê-los agonizando. Jacinto agora passa seus domingos na lage vendo seus novos amigos voarem. Enquanto eles o assistem. Agonizando.
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